Um tsunami na cozinha

Faço parte de um seleto grupo de mulheres que nasceram completamente desapetrechadas daquele talento (que dizem ser natural das mulheres) para me virar bem na cozinha. Decididamente a cozinha não é minha área e nem naquele cômodo da casa que inclui fogão, mesa e geladeira sinto-me muito à vontade, principalmente nas horas que antecedem as sagradas refeições diárias, as quais os outros membros da família esperam que eu providencie de forma razoavelmente rápida e cujo resultado seja também medianamente consumível.

Por “consumível” entenda-se: que não tenha aparência repugnante, que não seja nem muito duro nem grudento, que não esteja salgado nem doce em excesso e que seus ingredientes estejam dosados de forma equilibrada de maneira a não envenenar ninguém ou provocar crises de diarréia nos consumidores em potencial.

Há porém duas vantagens em cozinhar da forma que eu cozinho: os outros membros da família nunca terão problemas de obesidade e meus filhos – acostumados desde cedo a se sujeitarem à minha culinária toda particular – aprenderam a comer de tudo (literalmente).

Minha futura nora não terá problemas nessa parte porque tenho certeza que meu filho jamais lhe dirá coisas como “que saudade da comida de minha mãe” ou “minha mãe é que sabia como assar um peixe”. Qualquer coisa que ela lhe apresente será prontamente devorada e com certeza ele a cobrirá de elogios – todos sinceros. E mesmo que ela faça parte da mesma casta que eu, ou seja, que também provoque perdas e danos na cozinha, ele certamente saberá compreender e se conformará com sua sorte.

Felizmente não estou só, sei que tenho muitas companheiras por esse mundo afora que também lamentam sua falta de jeito com as panelas e formas, mas eu já estou conformada. Descobri que minha “arte” culinária é mais uma questão matemática que qualquer outra coisa. Por meio de uma fórmula que eu desconheço as coisas dão 10% das vezes muito certo, 20% sofrível, 30% mastigável e o restante dos 100% um desastre total.

Convivo com esses números (eu e minha família) há anos e sei que não há muito o que fazer para mudá-los. Na cozinha estou sempre meio perdida, as panelas e tampas se atiram no chão quando vou pegá-las, os panos de prato criam vida e se encostam no fogo, tudo na tentativa (na maioria das vezes com êxito) de desviar minha atenção do que estou fazendo e provocar um daqueles desastres que serão comentados por algumas gerações em seus momentos de lazer.

Minha falta de talento na cozinha já virou folclore e nem fico brava quando em alguma festinha familiar alguém desencava lá do fundo do baú “lembra aquela vez que…” e conta algum fato verídico que se passou na cozinha de minha casa e cuja personagem central fui eu mesma. Dá até um certo status conhecer bem essas histórias porque as visitas costumam adorá-las, acho que principalmente pelo fato de não terem que participar delas como coadjuvantes.

Apesar de ser um terror nas artes culinárias sempre tive muitos convidados para comer em casa. Aliás, nem os chamo de “convidados”, prefiro chamar de “cobaias” e acho que mais se divertiram do que comeram, imagino que a maioria aparece mesmo pela diversão, e preferem ficar por perto da cozinha para serem os primeiros a presenciar “a mais nova da Zailda’. Ou para socorrerem se alguma coisa der profundamente errado.

Se para você também uma simples salada pode se transformar numa batalha de vida ou morte, esteja à vontade porque acho que teremos muito que conversar.

(zailda coirano)

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Uma resposta to “Um tsunami na cozinha”

  1. Estela Brasil Frauches Says:

    Há mais uma vantagem: quando não se sabe cozinhar, ninguém te pede ajuda!!! rsrs

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