Arquivo da categoria ‘Problemas’

Introdução aos mistérios da culinária

23 Junho, 2008

Entro na minúscula cozinha disposta a aventurar-me pelos intrincados e obscuros caminhos da culinária. O estômago encosta nas costelas, rangendo de fome. Nada pronto na geladeira. Abro o armário e escolho uma dessas repugnantes sopas instantâneas, tipo Minojo. No pacote dizem que é rápido e fácil de preparar. Leio atentamente as instruções do pacote, releio e vou executando. Dois copos de água fria numa panela, depois despejo o conteúdo do envelope na água da panela. Faço exatamente o que reza a bula da droga instantânea, mas dentro da panela cai junto com o macarrão em placa um pacotinho prateado, que lembro então, contém o tempero pra sopa. A água está quase fervendo, o saquinho encostado na panela começa a derreter. Pego um garfo e tento pescá-lo de dentro da panela. O vapor da água borbulhante me queima o dedo.

- Merda! – praguejo.

Depois de alguns minutos de arriscadas manobras com o garfo, evitando o vapor quente, finalmente resgato o envelope e num golpe atiro-o pra cima… ele cai diretamente no peito do meu pé.

- Bosta! – me irrito.

Com um chute jogo-o longe, cai em cima da pia e, derretendo, começa a espalhar seu conteúdo nojento na pia limpinha. Com um pano de prato, cuidadosamente, evitando novos acidentes, pego-o e, antes que esboce alguma reação contrária, jogo-o dentro do baldinho de lixo da pia, tampando-o em seguida… nunca se sabe!

Enquanto estou nessas manobras arriscadas, a água da panela vai secando, então quando me viro, satisfeita por ter me livrado do perigoso pacotinho, dou com uma fumaça branca que sobe da panela. Rápidamente encho um copo dágua e jogo na panela, que emite um ruído forte e dela sobe duas vezes mais fumaça que antes. Assustada, tiro a panela do fogo, provocando alguns respingos de água no braço. Minha reação instantânea é jogar a panela com minojo queimado e água fervente na pia.

Depois contemplo, consternada, a bagunça na pia e na cozinha, que mais parece o cenário de uma guerra que propriamente uma cozinha. Panos de prato, garfos, macarrão queimado.

Infelizmente, nada comestí­vel.

- Desisto, que merda! – vocifero.

Retiro-me da cozinha derrotada, faminta, disposta a comprar um livro de culinária no dia seguinte.

(Escrito por Zailda Mendes)

Um tsunami na cozinha

4 Junho, 2008

Faço parte de um seleto grupo de mulheres que nasceram completamente desapetrechadas daquele talento (que dizem ser natural das mulheres) para me virar bem na cozinha. Decididamente a cozinha não é minha área e nem naquele cômodo da casa que inclui fogão, mesa e geladeira sinto-me muito à vontade, principalmente nas horas que antecedem as sagradas refeições diárias, as quais os outros membros da família esperam que eu providencie de forma razoavelmente rápida e cujo resultado seja também medianamente consumível.

Por “consumível” entenda-se: que não tenha aparência repugnante, que não seja nem muito duro nem grudento, que não esteja salgado nem doce em excesso e que seus ingredientes estejam dosados de forma equilibrada de maneira a não envenenar ninguém ou provocar crises de diarréia nos consumidores em potencial.

Há porém duas vantagens em cozinhar da forma que eu cozinho: os outros membros da família nunca terão problemas de obesidade e meus filhos – acostumados desde cedo a se sujeitarem à minha culinária toda particular – aprenderam a comer de tudo (literalmente).

Minha futura nora não terá problemas nessa parte porque tenho certeza que meu filho jamais lhe dirá coisas como “que saudade da comida de minha mãe” ou “minha mãe é que sabia como assar um peixe”. Qualquer coisa que ela lhe apresente será prontamente devorada e com certeza ele a cobrirá de elogios – todos sinceros. E mesmo que ela faça parte da mesma casta que eu, ou seja, que também provoque perdas e danos na cozinha, ele certamente saberá compreender e se conformará com sua sorte.

Felizmente não estou só, sei que tenho muitas companheiras por esse mundo afora que também lamentam sua falta de jeito com as panelas e formas, mas eu já estou conformada. Descobri que minha “arte” culinária é mais uma questão matemática que qualquer outra coisa. Por meio de uma fórmula que eu desconheço as coisas dão 10% das vezes muito certo, 20% sofrível, 30% mastigável e o restante dos 100% um desastre total.

Convivo com esses números (eu e minha família) há anos e sei que não há muito o que fazer para mudá-los. Na cozinha estou sempre meio perdida, as panelas e tampas se atiram no chão quando vou pegá-las, os panos de prato criam vida e se encostam no fogo, tudo na tentativa (na maioria das vezes com êxito) de desviar minha atenção do que estou fazendo e provocar um daqueles desastres que serão comentados por algumas gerações em seus momentos de lazer.

Minha falta de talento na cozinha já virou folclore e nem fico brava quando em alguma festinha familiar alguém desencava lá do fundo do baú “lembra aquela vez que…” e conta algum fato verídico que se passou na cozinha de minha casa e cuja personagem central fui eu mesma. Dá até um certo status conhecer bem essas histórias porque as visitas costumam adorá-las, acho que principalmente pelo fato de não terem que participar delas como coadjuvantes.

Apesar de ser um terror nas artes culinárias sempre tive muitos convidados para comer em casa. Aliás, nem os chamo de “convidados”, prefiro chamar de “cobaias” e acho que mais se divertiram do que comeram, imagino que a maioria aparece mesmo pela diversão, e preferem ficar por perto da cozinha para serem os primeiros a presenciar “a mais nova da Zailda’. Ou para socorrerem se alguma coisa der profundamente errado.

Se para você também uma simples salada pode se transformar numa batalha de vida ou morte, esteja à vontade porque acho que teremos muito que conversar.

(zailda coirano)